Mia mitou: ou de como foi a participação do escritor moçambicano na 63ª Feira do Livro de Porto Alegre

27/11/2017 09h46 - Atualizado 27/11/2017 09h46

 

 

Eram 8h30min da manhã quando cheguei ao Balcão de Informações da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre, para marcar meu lugar na fila. Objetivo: garantir meu voucher para assistir ao encontro com o escritor moçambicano Mia Couto. Os bilhetes começariam a ser distribuídos ao meio-dia e trinta. O quê?! Vocês acham que eu fiquei louca?
Só quem não conhece as obras do autor, nem o próprio, para correr o risco de chegar mais tarde e perder essa oportunidade. É lógico que EU não correria, não é?
Então fiquei, apenas, quatro horinhas de pé esperando o tão sonhado passe para ouvir e ver, ao vivo, pela primeira vez, o autor de Terra Sonâmbula falar. Evidentemente não foi um tempo perdido. Reencontrei ex-alunos da Unisinos, as queridíssimas Maria Evana Ribeiro e Cleusa Silveira Leite, do staff de informações, o Leonardo Fidélix (hoje ESPM), a quem dei uma entrevista, sem falar na inigualável Nóia Kern, figura que se confunde com a história da Feira. Estar em filas é um momento maravilhoso para trocar experiências, histórias, conhecer gente bacana, dar boas risadas e aprender. Imagina tudo isso em quatro horas de espera?
Quando finalmente peguei o meu ingresso, junto com o vale-autógrafo, ainda precisei esperar até as 18horas, quando o evento começaria. Algum problema nisso? Nenhum. Para encontrarmos nossos ídolos, todo esforço vale a pena, não é mesmo “Pessoa”?
Do encontro, participaram Jane Tutikian, a patrona da Feira, Valesca de Assis, e Dilan Camargo.
Mia Couto foi extremamente simpático, cativante, contou histórias pessoais, fez piada. Disse que já conhecia e amava o Brasil, muito antes de visitá-lo: sabia-o pelas vozes que chegavam a ele, primeiramente a de Dorival Caymmi, depois Gil, Caetano.
Ao referir-se à Guerra Civil que ocorreu em Moçambique, disse que temos que aprender com o que ocorreu lá, para o mesmo não se repetir aqui. A intolerância é um problema muito sério. Por isso, as pessoas devem estar disponíveis para o outro. Nesse sentido, ele elogia os moçambicanos, apontando que eles têm o condão de se abrir para o diferente.
Nesse processo de escuta do outro, os sujeitos também devem estar disponíveis não só a contar histórias, mas igualmente a ouvi-las, porque as histórias dos outros também fazem parte das suas e vice-versa.
Ao ser questionado por Tutikian sobre o papel da literatura na Moçambique pós-guerra, Mia Couto explicou que a literatura ajudou a curar as mágoas do povo; ela tem o poder de reumanizar. E sobre a presença marcante do feminino em sua obra, o autor disse que, muito provavelmente, isso de deve à sua experiência de infância, de estar sempre a fazer as tarefas de escola na cozinha, enquanto as mulheres preparavam o alimento e “fofocavam”, em voz baixa. Isso o intrigava. Ali se contavam histórias. Ao contrário do ambiente masculino, autorizado, onde os homens falavam alto e tudo era permitido. Para Mia Couto, a alquimia se dava na cozinha: da mistura do alimento com o segredo, vinha o sagrado.
Finalizando, o escritor deixou a mensagem que não devemos perder a ideia de futuro. Os moçambicanos não a perderam, e , por isso, souberam se reinventar.
Aplaudido várias vezes no decurso de sua fala, não hesitou em marcar posições que poderiam ser taxadas de polêmicas, como foi o caso de quando externou sua insatisfação com o momento difícil que estamos vivendo, em que devemos nos policiar quanto a tudo que dizemos: se a censura é difícil, muito mais a autocensura. Para ele, trata-se de uma questão muito mais complexa: deveríamos, por exemplo, nos preocupar, antes, com o que é ser racista, homofóbico, do que com uma solução puramente cosmética, no âmbito dos rótulos. Ao fim e ao cabo, podemos até não usar um termo que discrimina, mas agir de forma discriminatória ou, efetivamente, pensar dessa forma.
O que fez valorizar muito a participação de Mia Couto foi a mediação extremamente qualificada de Jane Tutikian, ainda que, por vezes, em minha avaliação, um tanto acadêmica demais (naquele sentido de achar temas recorrentes, buscar classificação de dados nas obras do autor), a partir da qual as melhores questões foram cotejadas. Que fique claro, minha formação não é em literatura, sou linguista, leitora (de tudo) e escritora de ficção recente. Na pequena crítica que faço a algumas perguntas de Tutikian, reside um certo incômodo meu, ancorado num pensamento de Quintana: nós, professores, temos uma tendência de querer saber os porquês, o que o autor quis dizer.
Ele quis escrever e pronto, certo? Teóricos que somos, lá vamos nós analisar tudo. Mas me incluo nessa crítica, porque também faço (fiz) isso.
Amei quando Tutikian disse enxergar Mia Couto como um “esteta da palavra”,num patamar diferente de Guimarães Rosa ( sem com isso menosprezar este último), com quem alguns alunos em trabalhos de pesquisa costumam querer comparar, pois me parece uma definição perfeita de como o escritor moçambicano trata o escrever. A sensação que tenho é que as palavras brotam de sua mente de forma completamente natural, sem esforço algum. Daí o encantamento que produzem no leitor. Mesmo os neologismos que o autor emprega são naturalmente encantadores. E essa parece ser a magia de Mia Couto: o uso que faz da palavra parece sobrenatural, em alguns momentos.
Enfim, foi um encontro memorável.
E se vocês pensam que as filas acabaram, enganam-se. Toca pra fila de autógrafos. Fui receber o meu às 20h30min. Mas valeu a pena: sabendo de minha epopeia para encontrá-lo, Mia Couto, sentado, até então, para os autógrafos, levantou-se para me cumprimentar, valorizando meu sacrifício. Um gentleman.
Saí de lá de alma lavada, coração transbordando de felicidade, pés inchados, e a cabeça cheia de “macaquinhos no sótão”, como diz o Ziraldo, no Menino Maluquinho.
Mia Couto mitou. E eu não esperava menos que isso.

 

Mia Couto em sua apresentação na Feira do Livro de Porto Alegre

 

O autor levantou-se para me cumprimentar, quando soube que eu estava desde às 8h da manhã para vê-lo.

Recebendo o tão sonhado autógrafo

 

 

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